06/07/2011

Madame Bodosa




Com seu ar de alta sociedade e autoestima de protagonista, Madame Bodosa sabe ter inúmeras qualidades. Umbigocêntrica e vaidosa ela as desfia, com requintes de detalhes, aos ouvidos que estiverem por perto.
Seus filhos moram no exterior, a sobrinha trabalha numa multinacional, o cachorrinho tem roupas de grife e é cliente de uma franchise, você entende, diz ela com ar de consternação, por aqui são todos tão tupiniquins, temos que nos aculturar, os Estados Unidos são tão desenvolvidos!, mas a Europa é mais refinada... Creio que fala da França, sua referência recorrente desde que fez uma viagem para lá, há alguns anos.
Meus filhos gostam muito de lá, não acostumam mais com aqui. Não se pode saber onde é ‘lá’, mas o Lá é sempre superior ao Aqui. Suas raízes são de parte alguma: nobres costumam ser assim, o sangue azul sempre se autorreferencia. Não há os-meus-os-teus-os-nossos, como poderia haver? Os Meus é que são. Moram no exterior, trabalham numa multinacional, já lhe falei?, a sede da empresa da minha sobrinha é Lá, está para receber uma proposta e mudar para a sede, lá é muito melhor.
Minha sobrinha foi educada por mim, é uma pérola!, e discorre, sempre longamente. Com o cachorro só fala em inglês, duas ou três palavras, ele é muito educadinho, mas só entende se falo assim – e suspira, resignada – creio ter que fazer umas aulas da língua da rainha Elizabeth.
Por estes dias esteve preocupada com a onda de frio no Sul: Ando sem tempo, mas assim que puder vou tricotar imediatamente alguns cachecóis para as crianças carentes. Temos que fazer alguma coisa por estes pobres! Fiz uma limpa no guarda roupa, dei uma porção de coisas, olha, roupas caras, até um casaco da Bloomingdale que comprei uma vez nos Estados Unidos, foi tudo para uma mocinha minha serviçal, mas não vão me fazer falta, precisava mesmo renovar o meu vestir.
Seus hábitos condizem: cultiva o bom humor matinal, passeia com Bob o cachorrinho de marca, leva a sério a máxima de você é o que você come, participa do Criança Esperança, gosta de calçadas limpas, acha bonita essa moda dos famosos adotarem crianças pobres, sabe-se lá o que levam para casa.
Quando criança pensava em ser Barbie, diz ela, os olhos úmidos de sonhos. E ri, do seu alto: Hoje não sonho mais. Creio ter alcançado tudo o que quis. Sua vida é linda: tem filhos no exterior, já lhe falei deles?, cachorro de raça, cabelos e jóias sempre da melhor espécie, mora no plano que sempre almejou, tem muitos amigos que lhe escutam solícitos, suas mensurações monetárias sobre as delícias da vida têm vários dígitos.
Madame Bodosa é generosa, Madame Bodosa é um primor.
Como poderia não ser feliz?




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