25/08/2011

O verdadeiro falso



Verdade seja dita: eu minto: sou um verdadeiro falsário. A mentira me compraz e me enriquece, não apenas monetariamente, mas porque convivem dentro de mim três ou quatro personagens ilustres. Dei-lhes os nomes devidos para poder evocá-los. Com eles sou grande e forte, astuto o suficiente para ludibriar e me divertir às custas de: pobres coitados, os de fora.
Os de dentro são ricos: sou detentor de um segredo, e como tal sou poderoso. Ninguém sabe o que sei, ninguém mais faz o que faço. A história é enriquecida de poucos e grandes falsários, mas sucumbiram à falta de limites. Agigantaram-se e perderam a dimensão do mundo.
O verdadeiro falsário não perde a dimensão do que é legítimo. Minha obra baseia-se na tríade Desejo-Vaidade-Segredo. Sou legitimado pelas forças humanas. O desejo move, a vaidade gera a posse, o segredo sustenta. A cereja do meu bolo: aval de experts e depois silêncio: ninguém quer ver suas suspeitas confirmadas. É minha prova de sagacidade, de técnica e aprimoramento.
Tempos atrás liguei para uma boa revista, destas que fazem matérias longas, e discorri a respeito do que acontece num shopping/antiquário do Rio de Janeiro, reduto de falsários baratos. Fui ético: não gosto de ver pessoas sendo enganadas por copiadores vulgares e sem competência, que enganam qualquer um a preço de nada. Não gosto principalmente de vê-los infiltrados na profissão, é desabonador.
O Falso é o que sustenta a humanidade. Com a Verdade estão todos preocupados, é foco de atenção das religiões à Ciência. A Verdade se ergue e sucumbe, alternadamente. Já o Falso... está sempre de soslaio, à espreita de mais uma queda para revelar sua verdadeira identidade.
Sou a personificação do Falso, e como tal serei reconhecido quando tudo vier à luz. Sou maior que o Amor, que acaba, mais forte que a Verdade, que tropeça, sou além da Vida, que é finita. Sou Mistério, Poder e Vaidade, sou sobre-humano.
E para quem está concordando,
tenho a dizer que:

É tudo falso.

Sou apenas um homem comum.





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04/08/2011





Quando o conheci, já era um artista velho e cínico. Exasperava-se com a burrice e no entanto a ignorância era um deleite. Decifra-me ou te devoro, era a frase sedutora, mas seus esquemas de esfinge acabavam por revelar o morcego de radar provinciano.
Aparentemente francês, cidadão do mundo, bengalas e chapéus foram encobrindo seu medo do outro. Acabou dândi de uma ilha: figura local.
Sua arte, grandiosa, era interceptada por uma personalidade cinco estrelas: muitas pontas, nenhum apoio, muito brilho inalcançável. Figura compacta de cor dentro do traço-limite escuro.
Do passado, sempre histórias grandiosas, quando era rei em Paris. Na primeira infância sempre somos reis. Não se tem notícia de ter voltado lá depois que cresceu e virou este.
Aqui montou uma família: redoma de supostas excentricidades para que não fossem descobertas suas qualidades humanas, seus pavores e justificativas esmigalhadas.
Separa o mundo em castas e não toma antiácido. Seu fígado real é quem determina o modo como trata os plebeus. Condescendente quando não lhe causam afronta, bondoso quando não se sente ameaçado, tirano com escolhas sexuais, irônico, professor, Prima Donna.
Sua arte amadurece e talvez floresça quando não tiver mais o gênio a conter sua saída para o mundo. Pensam em montar uma instituição para sua salvaguarda, mas talvez se transforme em mais uma redoma de excentricidades a interceptar acesso.
Isso exaspera: estamos mais interessados em desfrutar da obra, não em suportar o gênio, embora seja peculiar em breves tempos. Artistas são assim mesmo, era o pensamento corrente nos séculos passados, mas hoje se pensa em arte para o mundo, misturada nele, gerando movimentos ou silêncios, mas sempre face-a-face e sem intermediários.
Por fim, um recado à la Caetano:
arte é para brilhar, não para morrer de medo.


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