29/09/2011





Escrever é ato de fé: escreve quem crê. É preciso acreditar no que ainda não está materializado, e que começa a ser criado nas sinapses, na boca do estômago, no peito, na razão e pulsação.
Começa mental, e até aí é tranquilo: raciocinar todo mundo faz. Mas entrar numa espiral de processos racionais amarrados em percepções sensoriais, alimentar esses processos com fontes externas e internas, e dispor isso tudo num fio de palavras que sejam no mínimo compreensíveis, aí é que são elas. Tem que acreditar que pode sair algo dali, mais do que meros processos internos.
Escrever é pressupor um leitor, mesmo imaginário. Não é difícil: quem escreve sempre é um pouco esquizofrênico: cria-se personagens, raciocínios alheios, argumentações próprias, patchwork de criação.
Um texto é uma casa que se constrói com materiais diversos mas jeito próprio, como se palavras fossem argamassa moldável, com ritmo, luz-e-sombra, tensões internas, com condução a um tipo de entendimento-e-dúvida. Compor palavras é aprender a negociar com elas: respeitar a liberdade que a linguagem tem e fazer valer uma vontade própria de quem quer criar.
Escrever é operário, broca, porca e parafuso, até que no fim sai um Frankenstein todo diferente do que se pensou a princípio, mas que é e comunica. E que cada um faça como quiser.
Incomoda a exposição desses pedaços que são expostos e que são parte da paisagem íntima de quem escreve, mas é ato narcísico porque pressupõe interesse de leitor. Que se perceba: interesse de leitor, não de repercussão. A linha é tão tênue, e há escritores em todas as escalas, mas as palavras juntas só atingem o toque do Parla! quando prestam atenção em algo maior que a simples contagem numérica. É bacana, é saudável, é justo que se queira alcance, mas essa é só uma das cores da paleta. Outras são várias, como necessidade vital de comunicar, vontade de fazer alguma diferença, dinamite para abrir umas passagens, alguns ácidos, muitos band-aids, um humor descompromissado e muita ludicidade para simplificar nosso Frankenstein.
E que cada um faça o que quiser.



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16/09/2011

Súbito: Aqui Jaz





Súbito era um homem sem memória. Ao longo do tempo sempre se surpreendeu com as coisas que aconteciam consigo e com sua vida. Porque Súbito sonhava, mas não planejava, e seus sonhos sempre súbito esquecia.
Dos acontecimentos elegia alguns para lembrar e relembrar ao infinito. Guardava as memórias em caixas, lacradas e etiquetadas, feito os Famas do Cortázar, e esquecia: confortável. Dos Cronópios, aqueles seres que deixam as lembranças correrem soltas pela casa e de vez em quando recomendam a elas Cuidado com o Degrau, desses tinha certo receio por terem recordações demais. Muita bagunça.
Sobre as pessoas, pensava que a distância cria o encantamento. Súbito nunca se casou: É muito para a vida toda, é íntimo, é cotidiano, é falar baixo. Sua opção? Relações inatingíveis, guardadas no passado, ancoradas no futuro, fugazes e impessoais.
Súbito fez amigos com surpreendente facilidade, do dia para a noite, e os deixou para trás no calendário com igual rapidez. Quando sozinho para dormir, seus sonhos ou pesadelos revelavam não mais que vaga lembrança.
Súbito era sisudo, mas tinha sempre algo a dizer, alguma frase pronta, uma opinião formada, algum comentário de alguém, um ditado, uma piada raras vezes. Também os pensamentos guardava compartimentados. Dizia: 'Mentes fechadas têm bocas abertas, já disse alguém', e mantinha ambas cerradas enquanto tomava decisões seguindo ímpeto e instante. Cumpria: sempre e apenas rápido cumpria.
Morava numa casa de madeira escura, com muitas portas. Não se sabe que idade tinha há pouco, mas seu andar era de muitos anos: andava como quem tem vontade e cansaço. Seu jardim não tinha flores ou plantas cultivadas, mas dentro de casa Súbito colecionava relógios, inúmeros relógios, todos apenas com os ponteiros de segundos: É preciso ver o tempo passar rápido, professava com ar sábio.
Sua vida foi rápida.
Súbito morreu.
Na sua lápide:
Aqui jaz.




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