19/10/2011

da série Nossos Tipos




Marilinda Mirtes, mexicana, trágica: adora chorar. Não há comedimento em suas ações, sua personalidade é passional demais para reprimir um bom choro, incluídas sentidas e infindáveis lágrimas enquanto se olha ao espelho a soluçar.
É tudo muito repentino: numa quarta-feira às quatro da tarde, no meio de uma cotidianidade qualquer: é uma crise existencial, um jeito todo retorcido de ver as coisas, raios e trovoadas, uma inadequação, uma comédia de tanta tragédia. Marilinda baixou. E não há argumentos racionais, agora é chafurdar no próprio pântano até o dia seguinte, quando tudo retorna à sua normalidade.
Ela borra a maquiagem, faz que disfarça o rolar de uma lágrima mas as verte aos borbotões, funga na manga e não raro põe um rolo de papel higiênico por perto. Desconfie se houver lenço de papel na bolsa: é choro premeditado. Não lhe faltam amigas, embora nem todas sejam próximas o suficiente para compartilhar o chororô, mas sempre se ajudam, irmãs no infortúnio, e depois se esquece tudo o que foi dito.
Marilinda Mirtes diz que vai fazer e não faz, diz que vai e fica, que quer mas não pode, e quando nada diz vai fazendo tudo de sopetão, tudo atabalhoada, toda ímpeto. Vezes há que se arrepende, e isso na maioria das vezes. Mas dá pena, de tanta pena sente de si. É tudo real, os sentimentos daquela quarta às quatro da tarde são todos verdadeiros, dói de verdade. E é tão Almodóvar.
E que não se pense mal: é sempre tudo culpa dos hormônios. Só não se pode deixá-la convencer de que é a vítima nessa história: seria alimentar o dragão, o mesmo que abre as comportas de sua barragem interna.
Na saga em busca de quem queira assumir compromisso diz que é um absurdo que se fale que mulher gosta de ser mandada, e alardeia Eu não sigo as regras de ninguém, nem mesmo as minhas. Também costuma dizer Não vou entregar minha felicidade assim de bandeja, nem pensar!, e começa a romantizar. A lista de homens que passaram por sua vida daria uma seção da lista telefônica, e na narrativa todos começam de forma especial, meio mágica, intensa. Com Marilinda nada é somente.
Quando alguém consegue passar pelo emaranhado de conceitos se depara então com uma prova de resistência, vários quesitos a receber ótimo-regular-ruim, e para entender a lógica nem com Stephen Hawking. Inclusive faz parte a sequência 1. Fazer rir, 2. Ser espontâneo, 3. Respeitar mas não muito, 4. Ignorar temporariamente.
Marilinda, quando namora, sofre da Síndrome da Mulher Maravilha. Tenta fazer tudo Certo, e quando algo dá errado procura o culpado. Geralmente é ela: está acostumada à recorrência da culpa. Se a relação não sobrevive: Você com a Razão e a Culpa é minha. E chafurda no pântano, nem com Hawking, aquilo tudo. Até o finitus est, bye bye borracho.
Então Marilinda entra no Projeto Esquecer, que é como chama o resgate do que julga ter ficado para trás, quando deixou de si para ser o outro. Retoma seus sonhos, seus gostos, seus jeitos de viver o tempo sem ver a si mesma com o olhar daquele que achava tudo aquilo uma piada. Pois agora sente-se fora de controle e é assim que vai ser.
Como dizem os portugueses, A vida é bela e prego a fundo.


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