04/08/2011





Quando o conheci, já era um artista velho e cínico. Exasperava-se com a burrice e no entanto a ignorância era um deleite. Decifra-me ou te devoro, era a frase sedutora, mas seus esquemas de esfinge acabavam por revelar o morcego de radar provinciano.
Aparentemente francês, cidadão do mundo, bengalas e chapéus foram encobrindo seu medo do outro. Acabou dândi de uma ilha: figura local.
Sua arte, grandiosa, era interceptada por uma personalidade cinco estrelas: muitas pontas, nenhum apoio, muito brilho inalcançável. Figura compacta de cor dentro do traço-limite escuro.
Do passado, sempre histórias grandiosas, quando era rei em Paris. Na primeira infância sempre somos reis. Não se tem notícia de ter voltado lá depois que cresceu e virou este.
Aqui montou uma família: redoma de supostas excentricidades para que não fossem descobertas suas qualidades humanas, seus pavores e justificativas esmigalhadas.
Separa o mundo em castas e não toma antiácido. Seu fígado real é quem determina o modo como trata os plebeus. Condescendente quando não lhe causam afronta, bondoso quando não se sente ameaçado, tirano com escolhas sexuais, irônico, professor, Prima Donna.
Sua arte amadurece e talvez floresça quando não tiver mais o gênio a conter sua saída para o mundo. Pensam em montar uma instituição para sua salvaguarda, mas talvez se transforme em mais uma redoma de excentricidades a interceptar acesso.
Isso exaspera: estamos mais interessados em desfrutar da obra, não em suportar o gênio, embora seja peculiar em breves tempos. Artistas são assim mesmo, era o pensamento corrente nos séculos passados, mas hoje se pensa em arte para o mundo, misturada nele, gerando movimentos ou silêncios, mas sempre face-a-face e sem intermediários.
Por fim, um recado à la Caetano:
arte é para brilhar, não para morrer de medo.


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Um comentário:

  1. Anônimo5/8/11 10:03

    É incrível como consegue expressar tanta vida, tanta história com tamanha sutileza, em poucos caracteres. Tenho que admitir... Sou uma fã, não aquela fã que admira de longe, mas aquela que observa, se envolve,aprende, carrega tudo o que pode e torce, torce muito para que a fonte das palavras não seque jamais.

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