16/09/2011

Súbito: Aqui Jaz





Súbito era um homem sem memória. Ao longo do tempo sempre se surpreendeu com as coisas que aconteciam consigo e com sua vida. Porque Súbito sonhava, mas não planejava, e seus sonhos sempre súbito esquecia.
Dos acontecimentos elegia alguns para lembrar e relembrar ao infinito. Guardava as memórias em caixas, lacradas e etiquetadas, feito os Famas do Cortázar, e esquecia: confortável. Dos Cronópios, aqueles seres que deixam as lembranças correrem soltas pela casa e de vez em quando recomendam a elas Cuidado com o Degrau, desses tinha certo receio por terem recordações demais. Muita bagunça.
Sobre as pessoas, pensava que a distância cria o encantamento. Súbito nunca se casou: É muito para a vida toda, é íntimo, é cotidiano, é falar baixo. Sua opção? Relações inatingíveis, guardadas no passado, ancoradas no futuro, fugazes e impessoais.
Súbito fez amigos com surpreendente facilidade, do dia para a noite, e os deixou para trás no calendário com igual rapidez. Quando sozinho para dormir, seus sonhos ou pesadelos revelavam não mais que vaga lembrança.
Súbito era sisudo, mas tinha sempre algo a dizer, alguma frase pronta, uma opinião formada, algum comentário de alguém, um ditado, uma piada raras vezes. Também os pensamentos guardava compartimentados. Dizia: 'Mentes fechadas têm bocas abertas, já disse alguém', e mantinha ambas cerradas enquanto tomava decisões seguindo ímpeto e instante. Cumpria: sempre e apenas rápido cumpria.
Morava numa casa de madeira escura, com muitas portas. Não se sabe que idade tinha há pouco, mas seu andar era de muitos anos: andava como quem tem vontade e cansaço. Seu jardim não tinha flores ou plantas cultivadas, mas dentro de casa Súbito colecionava relógios, inúmeros relógios, todos apenas com os ponteiros de segundos: É preciso ver o tempo passar rápido, professava com ar sábio.
Sua vida foi rápida.
Súbito morreu.
Na sua lápide:
Aqui jaz.




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