"Basta um instante E você tem amor bastante"
Leminski
Uma mulher quer ter um filho.
Uma mulher qualquer, dessas tantas que passam ao largo pela rua, carregando consigo a própria história e seus delicados sonhos, essa mulher sonha em ter um filho.
Junto com o sonho aquela que passa ao largo leva também o tudo em que vive e os conceitos que esse mundo carrega. Seu nome pode ser Maria ou Valentina, pode ser simples ou ter várias sílabas, da mesma forma que os conceitos acontecem quando saem no mundo a interagir.
Uma mulher quer ter um filho, mas.
Pensa nas coisas que ouviu e aprendeu. Diz que filho dá trabalho, despesa, precisa primeiro ter uma estrutura, o mundo não está fácil, e sente medo, porque não diz, mas acha que filho atrapalha o curso da vida profissional, tira liberdade, é muita responsabilidade. Então trabalha e trabalha, e fica igual ao homem que queria trabalhar bastante para ganhar muito dinheiro e passar o resto da vida numa casinha com uma rede, na beira do mar, bem simples. E desconsidera que o bom da vida é a viagem, não a chegada, e que filho é isso mesmo, mas é muito mais.
Então ela trabalha e trabalha, e enquanto corre pelas ruas vai adiando o sonho.
É uma mulher que sonha em ter um filho, mas acha que para gerar é preciso ter um núcleo familiar seguro, uma casa adequada e confortável, vida tranquila, sentir que é a hora certa, superar seus erros todos, ter amadurecido tudo o que acha que precisa, estar pronta, e só então ter um filho. Diz que essas coisas são assim mesmo: alguns sonhos dependem de tempo para se concretizar.
E o sonho fica à espera da mulher, enquanto sonha acontecer.
Um dia a mulher que quer ter um filho sente que o tempo está passando. Novamente usa de conceitos que aprendeu, a restrição da idade, diz ela, sabe dos novos limites da ciência, que os amplia e desafia, mas não se desgarra da data simbólica. E sonha. Mas começa a achar que não vai dar certo, ou não vai dar tempo. E pressiona seu sonho, pensando que ele pode não acontecer.
A mulher passa ao largo, e já não sabe se sonha.
Olhemos para o outro lado.
Lá vem Maria Valentina, pela rua. Uma das tantas que passam por nós todos os dias, carregando consigo seus mundos. É uma mulher que sonha em ter um filho, e de vez em quando olha ao redor, para cima, para as dobras do mundo e pensa em como é bom viver a vida com esse tanto de coisas que o mundo carrega consigo. Pensa que quando tiver um filho vai lhe mostrar as coisas simples e as tantas camadas que os olhos podem ver quando observam, porque acha que viver é complicado, delicado e simples.
Diz que um filho é isso mesmo, complicado, delicado e simples, e que para um sonho desses acontecer é preciso seguir batalhando a vida, e também arejar a casa, botar o rumo no barco, abrir portas e portais para receber, bater longos papos com as estrelas e aproveitar bem as noites de lua cheia. Sabe que filho é resultado do big-bang da criação, e a natureza é sábia quando gera vida.
Enquanto a mulher anda e cuida do cotidiano e suas correrias, leva também consigo a força da mãe-terra, que todas as Marias e Valentinas têm em seu plexo solar. E tem medo, mas também disposição e coragem para viver suas conquistas.
Essa mulher sonha em ter um filho.
E que faça-se o sol.
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