Da mulher que tomava café com borboletas. Dizia, já então, que a infusão lhe dava ares. Em dias de chuva se liquefaz e gotas de suor lhe esvaem dos olhos.
Diz então que viver dá trabalho.
Gosta de seus inúmeros pares de calçados, sempre atormentada, a pobre esquizofrênica. Tenho sempre que saber onde piso disse-me um dia.
Nem sempre, me disse em outro: a vida tem passos de dança.
Por vezes criou hera em seus olhos. Raiva, ciúme, culpa, dor. Peixes nadando em seu silêncio. Por vezes cresceu amor, histórias, que me dizia, a velha jovem sábia.
Sobre pairar e amar feito gente grande.
Também quer criar raízes, arraigar para não sacolejar tanto, mas novamente se liquefaz, trepadeiras agarrando-lhes os olhos, buscando ver o que não quer.
Nem sempre consegue.
Nas grandes ocasiões lhe dou de beber chá: infusão de inusitado. Aplaca-me a sede de mundos, diz ela, com os olhos envoltos no vapor. Quer a vida em grandes goles.
Dias há que queima a boca.
Quando ama, me diz sobre ter colhões, enquanto mergulha suas borboletas numa dose de whisky cowboy. De seus casos trata com Sybil, Jung e Reich, processo de terapia e cura, peace and Love. Questiona o amor, as formas de amar, a dor do amor, os amores doentios, amor pra dar e vender, dar-se sem se abandonar, questiona o próprio abandono e a dor e o amor e vai em frente. Acaba concluindo que bom mesmo é viver.
E se joga.
Debate-se, mas se joga.
E nunca perde.
Da mulher que tomava asas, por vezes me diz do medo. Fala com a seriedade suave que destina aos assuntos importantes. Diz do quarto escuro. Do desconforto do desconhecido, da maciez do amor, do corte na carne. E diz da alma, que parece não mais voltar pra casa.
E enquanto fala, na força do não chorar, seus olhos se debatem.
E pestanejam.
Feito borboletas.
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