Quando descobri o mundo vi primeiro nos ladrilhos do banheiro. Eram somente manchas, pretos e brancos em gradações de cinzas abstratos. Via então da mesma maneira como brincávamos com as nuvens: o olhar solta-se do já concebido e entra em outro mundo, feito de formas. Somente formas.
Naquele mundo abstrato vi um mundo real feito de cavalos, montanhas e moinhos, velhos encarquilhados, olhares de bruxa, expressões, muitos rostos e mãos. Tentava desenhar, capturar linhas inclinações e retas e curvas, mas minha mão não fazia o que eu via.
Encabulado, o traço saía escondido.
Com o passar do tempo fui aprendendo que havia outras pessoas a contar do mundo que se vê nos abstratos íntimos, aprendi os nomes das formas do mundo, e pude explicar aos meus olhos. Foi então que meu corpo começou a entender: a mão e o braço já podiam finalmente se comunicar.
Foi assim que aprendi arte.
Quem diz que aquelas pinturas, daquele grande artista abstrato, até seu sobrinho faria, está certo. O sobrinho talvez esteja vendo um mundo em outra dimensão, diferente do mundo dos ladrilhos, mas igualzinho por ser único, pessoal e intransferível.
E também por isso: que não se diga o que é preciso ver e como sentir. Toca-se com a ponta dos dedos um mundo que é de soluções e inquietações, do que atinge porque sensibiliza, do que é paradoxo porque ali está o que artista buscou e não encontrou, pois a Resposta Correta calaria a plurivocidade da obra de arte.
E com isso, ou a despeito, nos emociona.
Você vai saber quando está frente a uma verdadeira obra de arte se acontecer, no seu olhar e na sua respiração, a mesma sensação do olhar de paixão, amor ou ódio, como se passasse a respirar junto com a obra, um querer olhar mais do que cabe dentro de si. E feito gatos curiosos nos acercamos. Queremos saber como se chama, quem foi que fez e do que é feita, buscamos dentro do nosso referencial as palavras que possam descrever o que se está sentindo.
E é então que começam os conceitos. Só então.
Quanto mais referenciais, quanto mais você souber falar a língua da arte, mais palavras terá para descrever o que sente e a riqueza do que está vendo - inclusive a si mesmo – e o mundo vai sendo desvendado, fica cada vez mais rico, com maiores gradações e nuances. Então ela, a obra de arte, nos contará o que estava acontecendo no momento em que foi concebida e gerada, o que estava a passar pelo mundo, vai contar sobre o artista como sujeito do mundo naquele instante em que foi composta peça a peça, nos contará aos cinco sentidos de coisas que já sonhamos mas ainda não sabíamos.
E então faz-se a luz.
Isso é aprender arte.
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