Te escrevo, filha, porque o tempo passa. Te conto do simples, para que ele não caia no cotidiano e se perca, para preservar a memória do que já é teu e tu ainda não sabes.
Da tua história posso te dizer que ela começou bem antes de ti, do mesmo modo que começamos todos nós. Somos fios de um tear que é ao mesmo tempo próprio e herdado. Somos feitos de inúmeros sobrenomes, raízes que se entrelaçam gerando brotos, frutos e flores. Tu te chamas Chiaradia Figueiredo Bordignon Meira Menegatti Canfild e mais todos os outros sobrenomes dos que vieram antes de ti, e por isso teu nome é tão curto: para dar simplicidade a eles todos. Liz é simples, e a boca vira em sorriso quando pronunciado.
Em sorriso te esperamos: tua espera foi adubada, lenta e atentamente. Lembro da espera que olhava muito para as estrelas, imaginando em qual delas tu poderias estar. Punha um sol na minha barriga e flores em meus olhos para te indicar o caminho, falava do ninho de amor que teu pai e eu estávamos preparando, aquecendo para te receber. Fazíamos planos que sempre te incluíam, tecíamos um futuro com tua presença, e assim construímos uma casa para te receber nesse mundo.
Agora estamos todos aqui. Quando seco teu corpo, depois do banho, vou dizendo vamos secar a cabeça, que aprende tudo, é inteligente e criativa, vamos secar esse braço forte que vai pegar o mundo e essa mão que pega tudo também, vamos secar essa perna forte que vai andar pelo mundo e esse pé que vai andar muito também, e assim vou te preparando para viajar, degustar, provar a vida. Cada parte do teu corpo está sendo conectada para viver experiências únicas, pessoais, intransferíveis, diferentes e irreverentes.
Quando, aos oito meses de gestação, teu pai e eu te levamos para mares de viagem, era isso que estávamos te dando: o mundo. Te banhava com as ondas: olha, filha, olha o mar que vai e vem, cidades e histórias submersas, seres viajando por cima e por baixo d’água, vidas são cíclicas, o mundo é grande e redondo, não há cantos, não há fim de linha, tudo vai e vem, se desfaz, refaz e recomeça.
O dia do teu nascimento era dia de São Jorge. Dai força à nossa guerreira, pedi ao santo. Espada para enfrentar, escudo para se proteger e seguir em frente. Parece que fui atendida. Teu espírito é vivaz, voraz, risonho e simples. É curioso: chora de susto, mas não chora de dor. Não esqueça nunca que tens embutida numa das mãos a espada e na outra o escudo. Faz bom uso deles ao longo da vida.
Para ti quero poucas coisas, para que possas se ocupar prazerosamente com teus próprios quereres. Quero que tenhas sentimentos de pertencimento, humildade e curiosidade para aprender sobre o mundo e todas as coisas que dentro e sobre ele estão, ludicidade para encarar a vida, muitos risos, belos vínculos, malemolência e gentileza, muita.
Poucas e boas coisas: são meus quereres decantados. Quero que sejas feliz nesse nosso mundão, tantos querendo fazer tanto e tudo, sem saber que somos infinitos, do infinito viemos e a ele voltaremos, e isso é tudo.
A vida agora é tua. Te amo, te educo, te instigo, te ensino regras pela manhã e te dispo delas à noite, para que possas viver a vida com e sem elas. O mundo é grande, e é sempre bom saber que se pode transitar.
Quanto à tua família, te ampara nela como teu tecido emocional. Tens amor incondicional, uma família grande e pulsante, e um jeito de amar diferente que vem de cada um. É teu refúgio e tua fortaleza, a casa quentinha para onde podes retornar sempre que se fizer noite e chuva lá fora.
Trouxeste o próprio tear, menina Liz, e teus fios são todas as gerações que vieram antes de ti mais todas as cores que queiras inventar. Presta atenção nas tuas escolhas, porque são elas que compõem o nosso olhar, e é sempre bom vermos a nós mesmos com tranquilidade. Mas pega teu tear com as duas mãos, com braços de mundo, com cabeça que quer experimentar seus próprios desenhos e composições de cores. Teu tear é só teu, e o jeito de fiar ninguém ensina a ninguém. Tens que experimentar seus próprios fios e a delícia de compor um desenho único e inusitado.
Tua vida é tua.
Essa é a nossa menina Liz, cheia de vida e fibra, sorriso nos labios e alegria nos olhos.
ResponderExcluirAhhh que lindo! :o)
ResponderExcluirq bacana esse voto de felicidade. lembro de uns trechos terem sido lidos no batizado, não? vou vir aqui ler teus posts. muito bom. eu estou nessa vida de tecla tecla, louca para dar um pontinho final na tese, um dia termina ela e termino eu. eheheh beijos, gracias, barbara arisi
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