16/06/2011






Silenciosa era feito seu nome. Teve um filho lá outro cá; do outro, quando morreu, disseram virou anjinho. Ela emudeceu.
Da vida ela gosta e não reclama, nada diz da dor. Conta os sonhos com medo de falar e neles conjuga os verbos do querer em futuro distante, frases iniciadas com quando eu crescer. Crescida, já mulher feita, refaz caminhos com silêncio de vergonha. Tem amor, alegria, vontade de aprender, gula, vergonha, medo, dor. Nada fala: volta para dentro de si.
Vergonha quando voltou à cidade de onde partiu, quando ainda não era ela. Buscava memórias, relatos, consertos, sozinha olhava para trás. À sua volta havia lacunas, contos de quem nunca mais, sua memória não era mais sua, o que era próprio não lhe dizia respeito. Nada dizia. Silenciosa, apenas ouvia com os olhos.
À parte os relatos, tem cacos de memória que machucam. Nojo: espero você voltar, lhe dissera o tio aos 11 anos. Depois novamente fugir de mãos que invadiram sua meninez. Fugir é uma forma de calar.
Quando volta à tona e submerge, sonha ter luz de sol. Não sabe que já a tem. Quando eu crescer, subjetiva, abstrata. Sofre em silêncio: só conta seus medos depois, quando conta. E quando conta é como fosse nada, apenas uma curiosidade, uma pastilha qualquer que fala docemente, quase a se desculpar, sabe que estava com medo?, e ri, em doçura. Acha que é errado. São fibras nordestinas, povo forjado no sol cáustico.
A mãe tem falas agudas e olhos risonhos. A filha sorri muito e quando séria engole em silêncio. Povo ensolarado e forjado na vida. Silenciosa é mãe das duas mas tem medo. Seus tombos guarda no fundo do poço e daqui pode-se ouvir os ecos, mas ela os trata como barulhos do vento: parece que vai chover, conta calada. E muda fica.
Então fala bastante suas falas diárias. Suas palavras são casulo para um silêncio que não sabe exprimir. Quando uma nesga se abre e algo é entrevisto rápida puxa fio de palavras que envolve até o atordoar. Onde guarda sua voz ninguém sabe, talvez só ela mesma. Ou nem. Gostaria de lhe dizer confie na vida, tudo está dando certo, mas não sei se sei dizer essas coisas. Não sei quantas quedas tem seu poço profundo. Emudeço com ela, e com ela aprendo a dar um amor mudo, feito de simplicidades cotidianas.
Com seu povo aprendo a sorrir com os olhos e aceitar em silêncio gestos sérios.
Silêncio também é jeito de amar.





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Um comentário:

  1. na verdade to ate sem palavras pra comentar, so sei dizer, Obrigada...

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