16/06/2011

Da poesia - em voo solo



Da poesia nada sei. Ela é que me sabe. Velhas amigas, amantes inconfidentes, rebeldes, transgressoras, cúmplices, ela e eu, de nós mesmas. Dela não poderei jamais me separar. Nascemos juntas.

Da poesia muito sei. Ela me sabe mais. Dessa mania incontrolável de evaporar janela afora, dos desejos estranhos que fervem em algumas madrugadas de chuva, dos desvios, dos desvarios.

Minha poesia vem do riso, da paixão, do susto, sustento, tombo, cambalhota, saliva e gozo. É construída, concreta, sábia, demente, duvidosa e polígama. É a Geni que aceita o Zepelim, a cortesã que testa o mandarim, a Rapunzel que joga suas tranças para que eu possa galgar seu castelo nas noites de amor. Ela testa, combate, desafia e me devolve à vida. É o retrato de Dorian Gray a envelhecer por mim, a conter, contar, me recriar. Por ela posso manter-me crente na vida, no mundo, bombocados de amor, goles de mim.

A poesia é meu espaço aberto, campos de trigo, girassóis, rosto voltado à luz e riso, gargalhadas de sol. Quando asfixio rompe cadeados de atenções, desvia olhares, me põe de louca. Ensandeço, entonteço, desapareço espaço aéreo, ela eu, bocados de nuvens, algodão doce, infância e riso. O antídoto às seriedades, a máscara de oxigênio. Minha poesia me faz respirar.

Então me expando, estico e voo espreguiçadamente. Minha poesia é uma rede balançando em sua própria poética, na teimosia em ser livre, no espírito que canta em pleno vôo e meus olhos que acompanham daqui, da janela da torre, enquanto Maria Callas e seus timbres mais agudos ressoam, reverberam, eu reverberando, verbando, verborragia em poesia.

Posso voar.

Minha poesia é desassossego, paixão pela vida, meus nós, sustos, transgressões, sou seu espaço para poder amar aos ventos. Meus olhos. Meus azuis. Meu tato. Química da paixão.

No amor revivo. Por ele não morro. Respiro.

Fome de nuvens.

Minha poesia é meu voo. Amante. Silente.

E livre.





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